quinta-feira, 13 de agosto de 2009






ALCIMAR, CADÊ VOCÊ?


Disseram-me que de repente partiste. Foste para qual céu? Dos pretos velhos? Dos índios? Morar com a tua “moça”? Foi tão de repente, que surpreendido pela partida fiquei a imaginar qual seria o teu propósito: talvez algum enigma a ser decifrado, um sonho a ser realizado ou, quem sabe, num acesso de raiva por que não concordaste de que a vida não era bem do jeito que querias!
Aí me lembrei de uma poesia tua que em certo trecho dizia:

“Estou oculto aqui, no fundo
mais sutil que um espectro de regresso
a este mundo.
Recomposto da matéria do medo e do universo
ele é incompreensível e intolerável; e eu, não.

Olha o campo e vê crianças
que, inocentes, dão cursos ao seu brinquedo.
São lindas – ignoram o meu segredo:
disfarcei-me
em grama, em insetos, em sementes.

Estarei por toda parte – esta é a última arte
em que me empenho.
Quando desceres o rio, rema de mansinho;
teu vizinho aqui está, em meio às bolhas,
no dueto das folhas e do vento.
Parque agora já não sou ninguém “. (1)

Contaram-me de que tu foste tão de repente, deixando-nos por entender de como a vida é fugaz! Levaste contigo os sonhos, todas as possibilidades do irreal e o encontro do impossível!
Viste com absoluta clareza a marca da tua partida:

“Breve é a vida do homem sobre a Terra,
como o vôo da ave
entre duas árvores que próximas cresceram.
Porém, semelhante ao eco, que mais forte se faz que
o próprio grito,
torna teus passos e teus dias infinitos
na lembrança dos vivos e dos que ainda não nasceram.
Faze com que tua vida vença as mortes,
a tua morte e a dos justos que aprenderam” .(2)

Voltava a minha morada e viajava nas lembranças de quando te conheci: magro, empertigado, incisivo; havia um traço de orgulho a transparecer do teu saber. Recordei-me de como nos surpreendia quando afirmavas de que eras o Zorro - fleumático e misterioso herói de capa e espada nas lutas pela honra e justiça -, ou quando te apresentavas como o papagaio – atrevido, debochado, aventureiro - que pousado sobre ombro do terrível pirata percorria mares sem fim na busca de incontáveis aventuras; e por muitas vezes quando te transformavas no terapeuta que com as suas pedras coloridas, suas musicas, sons, luzes e cores, sinos e chocalhos, procurava nos levar ao encontro da nossa essência e a cura de nossas doenças, de todas elas! (chamaste de Merlin ao método com que nos tratava). Imaginei ver-te contar um segredo:

“Porque a face de Deus não podia ser contemplada
conformavas-te com o pouco que era dado.
Agora, salta sobre o abismo e sabe que depressa
serás levado como uma pluma.

Serás iniciado em todas as magias;
aprenderás o dom das profecias, porque deves conhecer
que, após o futuro, vem a noite e a chama.
É muito a habilidade de tornar águas em vinhos
e romper caminho sobre sargaços e a espuma
de um mar que, escravo teu, te obedeça” .(3)

Aprendi a te escutar e consegui aceitar as tuas idéias, mas, após intermináveis horas de exposição, eu, cansado, extenuado, sem energias, ficava feliz ao ver-te calar a boca.
Muitos desejavam que a tua boca se calasse! Medo da verdade nua e crua? A inveja sobrava e a coragem faltava àqueles maledicentes e covardes que viviam pelos cantos a te criticar. Proclamaste a todos os ventos:

“Não tenho de me explicar.
Vós é quem deveis compreender-me,
ignorantes.
Sou cego, mas não mudo.
Da minha boca jorram
bênçãos e anátemas,
mas todos aqui parecem surdos.
Por que não me enxotais logo daqui?
Subi ao palco
com espadas.
Que nada. Pagastes por isso, e aplaudis a tudo.

Ah, a língua! Sem ela, nada de temperos,
e adeus a alguns vícios.
Mas, com esse músculo na boca, o impulso de falar
é irresistível.
E a palavra costuma tirar o sabor de alguns momentos,
Mesmo de uma vida “. (4)

Será que ainda nos ronda, tentando despertar em nós o desejo por conhecer segredos e mistérios ou por entender de coisas que nos parece ser de difícil compreensão? (Como é pequeno e limitado o nosso mundo!).

Ainda desejas a tua loira encantada? “Modelo de calendário”, como dizia ironicamente uma conhecida!

Já encontrastes com Jung para discutir sobre a teoria dos arquétipos?

Ainda achas de que o Dire Straits é o viajante intergaláctico que invadiu o nosso planeta azul com sons e músicas de outras esferas?
E a tua veneração por Bob Dilan continua a te arrepiar a pele e afagar ao coração?

Recordas-te das viagens e experiências sensoriais do Santo Daine? Da “bagunça” que aprontaste na Fraternidade Eclética fazendo o Mestre Yokaanam tremer?

E a tua banda, o “Holandês Voador”, que no único vinil gravado – “Cinderela” – trazia na contra-capa a tua foto e eras o “Cícero Fernandes”, letrista, compositor, guitarrista e cantor?
No teu livro de poesias “O vinho antigo”, novamente o teu verdadeiro nome não aparece: agora és RAMA, o iluminado, o senhor dos mistérios, que em meio à natureza recebe o prana divino e as energias do cosmo!

E as críticas a Elomar, escritas em um jornal de Brasília, ainda doem na tua consciência?

Continuas a ter inveja dos Augustos por causa de suas mulheres?

A tua casa lilás, os quadros, as imagens, os enfeites e o altar de Iemanjá se transformaram em tesouros para muitos ou viraram poeira nas mãos de poucos?

Centenas de pequenas lembranças, estranhas idéias, conceitos por vezes extravagantes - não sabíamos como entendê-los - sobraram de ti. Entre alguns achados, pequeno trecho de uma poesia me emociona e me faz voltar ao encontro do meu Deus:

“Não perdeste Deus; tão pouco foste por Ele preterido.
Agora, reconstrói o Deus de tua história
antes que a memória se esvaeça,
com a mesma força e piedade igual.
De tua humana dor recria a divina glória, e não faz mal
que ele te apareça feroz ou te beije docemente;
não importa que ele venha do Cáucaso ou do oriente,
que fale línguas que ninguém conheça.
Quando Deus bater à porta, dá-lhe teu regaço.
Ele virá entediado da longa caminhada pelo espaço,
da dura travessia pelo tempo.

Se perguntares, talvez ouça testemunhos
sobre galáxias ignoradas, sobre oceanos distantes e medonhos;
saberás de estrelas flamejantes por Ele mesmo arquitetadas.
Indaga-lhe sobre o retrato mais exato
do paraíso.
Talvez haja uma foto; toma-a nas mãos e esquadrinha
a paisagem.

Descansa e poupa a ti e a Ele.
Veste a tua alma e a tua melhor roupa.
Então, segue-O na viagem “. (5)

Saudosas recordações que transformo em homenagem a Alcimar Fernandes Pereira e que ele possa tomar conhecimento dela, se ainda houver tempo. Como ele mesmo disse: “que está por toda parte e sendo a última arte em que se empenha”, talvez esteja seguindo a Deus nessa viagem em que a imaginação não tem limites.


(Créditos: trechos 1,2,3,4 e 5 – transcritos do livro O Vinho Antigo-Copyright 1994 by Alcimar Fernandes Pereira e Céu dos Índios-Produtora de Bens Culturais)